A insegurança feminina é um ciclo sem fim?



Hoje fui impactada por um anúncio, de uma marca conhecida, de toda uma linha de xampus e tratamento para cabelos brancos. Fiquei refletindo nessa “grande casualidade” das mulheres se sentindo libertas da indústria da beleza, assumindo orgulhosas os cabelos naturais, e a essa reinvenção dessa mesma indústria para oferecer sempre novos gatilhos de consumo e inseguranças. Agora está tudo bem ter cabelos brancos desde que não sejam amarelados e nem quebradiços. Com isso convido a todas a uma reflexão: será essa uma consequência do movimento de reconstrução de autoestima feminina ou será todo esse movimento uma ação impulsionada pela mesma indústria para abrir novos segmentos de negócio?


Ressaltamos que estamos vivendo um fenômeno de longevidade na população mundial. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), em seu último relatório técnico “Previsões sobre a população mundial”, elaborado pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais, nos próximos 43 anos o número de pessoas com mais de 60 anos deidade será três vezes maior do que o atual. Os idosos representarão um quarto da população mundial projetada, ou seja, cerca de 2 bilhões de indivíduos (no total de 9,2 bilhões). Será que a indústria não estava ligada nessa tendência e só reagiu quando o bonitão de Hollywood apareceu com uma noiva grisalha ou aquela influenciadora de moda quis fazer a transição aos 45 anos?

Lembrei do caso da cantora Alicia Keys que, em 2007, anunciou ao mundo que o uso excessivo de maquiagens gerava uma insegurança muito grande com a sua própria imagem. Admitiu que durante muito tempo morria de medo de ser flagrada de cara limpa e não desejava essa sensação para nenhuma outra garota. Reconhecendo seu poder de influência, decidiu virar o jogo e não usar mais maquiagem com a finalidade de que outras mulheres se libertassem também. Um ano depois, soubemos que, apesar de até hoje raramente usar maquiagem, e quando usa ser algo muito discreto, mesmo em shows, Alicia havia se rendido a outras inseguranças, como tratamentos faciais anti-idade, autobronzeador, máscaras, óleos orgânicos, etc.


Outro fato, a Dove (empresa da indústria da beleza que se dedica ao milionário “setor da beleza da mulher real”) divulgou recentemente uma pesquisa que mostra que 84% das meninas de 13 anos mudam seus corpos com filtros antes de publicar uma foto nas redes sociais.


Será a insegurança feminina um ciclo sem fim?

Então, a indústria não está errada em expandir sua atuação e investir num mercado promissor. O papel dela é gerar lucro para os acionistas. Mas o grande debate acontece por conta das mensagens disseminadas que continuam reforçando os ódios a nós mesmas, definindo quais padrões de rostos, cabelos ou corpos são dignos de atenção e elogios. E caímos outra vez no terror da insegurança e da busca por validação alheia.


Nunca tinha me passado pela cabeça se meus fios brancos são amarelados ou não. Agora, me vejo cogitando colocar o tal kit na cesta de compras. A rapidez que o gatilho é acionado me assusta. Percebo o quanto ainda é forte essa cultura da beleza e feminilidade. A voz da indústria exerce uma autoridade que continua mantendo mulheres submissas a esses mitos. Somente a informação e exercícios como este de questionamentos e provocações entre nós serão capazes de blindar nossas vidas, permitindo uma verdadeira evolução.


Patricia Almeida

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