“Você não vai saber envelhecer”


Já perdi as contas de quantas vezes ouvi isso da boca do meu marido. Ele sempre fala isso em tom de piada e nunca com a intenção de me ofender, mas ele nem se dá conta que está repetindo um padrão, uma mentalidade. E isso geralmente acontece quando eu visto algo, que na cabeça dele e no inconsciente coletivo, deveria cair em desuso para uma mulher na casa dos 40, 50 anos.


Pra ser muito honesta com você, eu não dou à mínima e ainda faço piada por cima. Nunca troquei uma roupa por me sentir insegura em relação a um comentário dele ou de qualquer outra pessoa. Perdi a conta de quantas vezes ouvi de minha família, de amigas e até de ex namorados: “você vai assim”? Sim, eu vou!


Na adolescência e início da fase adulta, eu era meio cigana, hipponga (não estou sendo pejorativa. Era assim que as pessoas se referiam ao meu estilo) e isso era traduzido na minha forma de vestir. Lembro que quando comecei a universidade (eu estudava numa universidade de elite – apesar de não fazer parte dela) e logo no início eu fui com uma roupa estilo bem hippie e duas tranças no cabelo. A primeira reação foi da minha mãe: “Você vai assim pra faculdade”? Quando cheguei lá, reconheci a mesma expressão no olhar que acabava de ter presenciado em casa, mas dessa vez em dezenas de pessoas.


Sabe o que eu fiz? Me diverti tentando adivinhar o que as bocas não tinham coragem de pronunciar. Pensa que eu me intimidei? De jeito algum. Continuei me vestindo do jeito que me dava na telha no dia. Eu era (e continuo sendo) muito eclética. O que mudou de lá pra cá? A segurança de saber o que me cai bem ou de não me intimidar com a opinião alheia quando quero tentar algo novo.



Se durante uma fase em que estamos vulneráveis e muito preocupados com a opinião alheia, devido à necessidade de pertencimento eu não abri mão do meu estilo e da minha vontade, por que, logo agora, nessa fase da vida, onde sei quem eu sou e aprendi que a opinião alheia diz muito mais sobre quem está proferindo do que sobre mim e que, infelizmente, nunca vem acompanhada de um Pix, para ajudar a pagar as minhas contas, por que eu me importaria?


A forma como nos vestimos, comunica quem somos (ou deveria), sem ao menos termos a chance de abrirmos a boca. É claro que existem alguns códigos a serem respeitados (a exemplo do ambiente corporativo e de alguns momentos e/ou eventos específicos), mas por que precisamos nos limitar a padrões se somos únicos? Podemos e devemos imprimir a nossa personalidade na forma em que nos vestimos.


É aí que a moda entra como uma das mais importantes formas de expressão que temos a nosso favor. Essa coisa de associar a moda com a futilidade é uma grande bobagem. Quando falamos do vestir, estamos falando de autoconhecimento, autoestima, imagem e personalidade.


Acho interessante quando vejo mulheres de personalidade e estilo muito próprio se tornando influencers da 3ª idade, sendo ovacionadas pelas pessoas e fico me perguntando o que essas mesmas pessoas falariam dessas mulheres quando elas estavam na casa dos 40, 50 anos. No mínimo, eram consideradas excêntricas, extravagantes e/ou exóticas. Consigo imaginar os pensamentos carregados de preconceitos e sentenças do que pode ou não pode.



Por que uma mulher na casa dos 80, 90, super estilosa só é reconhecida como tal quando chega nessa idade (as poucas que tem sorte)? Parece que nessa fase da vida existe uma licença poética pra ser o que se é. Isso tudo por conta da proximidade da finitude. O louco é que você só chega nessa idade radiante, dona de si, se você tiver tido a coragem de não abrir mão dos seus desejos, do seu estilo e da sua personalidade durante toda a sua vida.


Dou graças a Deus por ter nascido na década de 70, ter tido Elke Maravilha como referência de estilo e liberdade estética, me apaixonado perdidamente pelo Sidney Magal, com toda sua ousadia e sedução, aos 6 anos de idade (1º crush da vida!) e por ter me apropriado dos conceitos, misturas, liberdade, experimentos e variedade que a Moda me proporcionou. Não foi à toa que fiz dela uma carreira no passado, justamente para incentivar mulheres a usar e abusar desse recurso como forma de expressão, autoconhecimento, valorização, autoconfiança e admiração.


A minha relação com a Moda continua firme e forte, mas é uma relação muito livre. Ela está sempre me dando opções, tentando me seduzir com tendências e velhos conceitos empacotados em uma estética mais moderna com nome bonito. E eu, do alto dos meus 50 anos, continuo fazendo o que sempre quis. Observo, experimento, descarto o que não me preenche, uso e abuso o que me encanta. O melhor disso tudo é que, apesar dela ter as próprias convicções, não há cobranças e ela me respeita e me admira justamente por eu ter opinião própria e personalidade para fazer minhas próprias escolhas. A moda e o meu marido poderiam andar de mãos dadas.