As mulheres podem envelhecer? Tem (muita) gente achando que não!

“Os homens envelhecem como o vinho, as mulheres como o leite”.

Foto: reporter.mk


Apesar do envelhecimento ser o processo natural da vida, ele é evitado a qualquer custo. E isso se deve, principalmente, ao fato de esbarrarmos em nossa finitude aos seus primeiros sinais. É difícil dissociar o envelhecimento do surgimento de doenças, das limitações, da pele flácida, da perda de memória e da dependência. Afinal, até pouco tempo, era essa a realidade das nossas antigas gerações. Por isso, tentamos escondê-lo a qualquer custo, como se essa tentativa tivesse o poder de adiá-lo ou impedi-lo de se estabelecer.


Mas por que nós mulheres, somos as mais afetadas?

Do ponto de vista da natureza, uma pessoa incapaz de reproduzir é um material biológico inútil. Ou seja, quando paramos de reproduzir, perdemos o nosso valor! Uma mulher quando chega à casa dos 40, se torna invisível. E aí acabamos seguindo à risca esse conceito inventado por não sei quem, que diz que “a mulher precisa envelhecer com dignidade”. Traduzindo, não podemos aparentar a idade real. Temos sempre que recorrer a mecanismos que nos permita aparentar no máximo 35 anos.


Que loucura é essa?

Vamos voltar um pouquinho no tempo para entender a história por trás disso.


"Como nos conta a História e nos comprovam estudos arqueológicos, houve uma época em que uma cultura “matrifocal” regia nossa civilização. Tal cultura denomina-se “matrifocal,” e não “matriarcal,” pelo fato de não permitir, principalmente, distinções hierárquicas entre homens e mulheres. Não havendo relações baseadas no poder, os indivíduos relacionavam-se com o princípio do coletivo, do trabalho e vida em comunidade onde não havia espaço para guerras, ameaças e destruições de seus semelhantes. A vida era totalmente regida pela relação entre o indivíduo e a natureza. As mulheres, por seus ciclos menstruais e de fertilidade e gestação, eram diretamente relacionadas com os ciclos da natureza. A própria terra era considerada como a “grande mãe,” aquela que nutria e dava sustento àqueles que dela dependiam, daí a importância atribuída ao aspecto “feminino,” tanto do ser humano quanto da terra que habitava. O indivíduo era totalmente absorvido e integrado à natureza, aos seus ciclos de vida e morte, e aos cuidados ao tratar com a terra, pois dela advinha sua existência e continuidade."

Bruno Vinicius Kutelak Dias e Regina Helena Urias Cabreira


De acordo com a explicação do estudioso norte-americano Joseph Campbell: “Não resta dúvida de que nas épocas mais remotas da história do homem a força mágica e misteriosa da fêmea era tão maravilhosa quanto o próprio universo; e isto atribuiu à mulher um poder prodigioso, poder este que tem sido uma das maiores preocupações da parte masculina da população - como quebrá-lo, controlá-lo e usá-lo para seus próprios fins.” Os desacordos causados entre o feminino e o masculino estiveram presentes em nossa civilização desde 4.000 a.C.


Na Idade Média, as mulheres conhecidas como bruxas, nada mais eram que mulheres mais velhas, experientes e que tinham o conhecimento necessário para lidar com a vida e a morte. Elas eram as médicas e conselheiras da época. Eram vistas como mulheres sábias e participavam da vida comum.

Ao final do século 14 e meados do século 15, época da inquisição, as mulheres sábias se tornaram o alvo dos então inquisidores. A caça às bruxas, como ficou conhecida, foi amparada por uma série de justificativas teóricas inventadas por padres em toda a Europa, que construíram uma nova narrativa acerca dessas mulheres. Elas foram transformadas na personificação das forças do mal e eram associadas à prática da magia negra e adoração ao diabo. Afinal de contas, elas estavam contrariando os dogmas cristãos. Isso só aumentou as tensões já existentes entre homens e mulheres. E mesmo com o final da Inquisão, ainda no século XVIII essa imagem permaneceu. "A imagem que temos das bruxas são construções que surgiram com o único intuito de manter uma estrutura de poder que subjuga o feminino e mantém a supremacia do masculino. São resquícios de uma criminalização institucionalizada da mulher livre, sábia e dona do próprio caminho", explicam Waldyr Imbroisi e Lucas Miranda.


Sabe quem é essa mulher livre, sábia e dona do próprio caminho? A mulher madura. A mulher que, ao contrario dos homens, não tem o seu envelhecimento associado à sua experiência. O valor dela foi reduzido simplesmente à sua aparência física.


“A velhice masculina é mais positiva, porque não é tão centrada na aparência do corpo. Os homens podem envelhecer, ter rugas, engordar e ter cabelo branco que não são tão cobrados”.

Miriam Goldenberg, antrópologa...


E aceitando essa condição, vivemos numa busca incessante pela imagem jovial, pelo aspecto saudável e pela beleza vinculada aos modelos sociais, tentando nos encaixar nos padrões que são impostos pela mídia e pelas indústrias, que, aliás, têm total interesse em nos ver inseguras, pois a insegurança vende muito! Ter uma pele lisinha, sem manchas, rugas ou marcas de expressão, ter cabelo liso, pintado e hidratado, ter um corpo jovial e magro, sem celulites, estrias, varizes, sem gorduras localizadas e seios siliconados e ter sempre o guarda roupa atualizado com as últimas tendências da moda custam caro!


Somos capazes de gastar o que não tempos só para sermos aceitas. Temos pavor de julgamentos! Por isso, tudo que vai de encontro ao ideal de beleza desse contexto social nos causa constrangimento. E assim, seguimos a manada. Afinal de contas, manter a aparência natural na idade madura é sinônimo de desleixo.


Mas afinal, para que serve mesmo essa tal da maturidade?

O envelhecimento precisa ser naturalizado. E não há fase melhor que a idade madura para colocarmos isso em prática. Nessa fase da vida, não podemos nos dar ao luxo de perdermos tempo com o que nada nos acrescenta. Entendemos que os sinais do tempo e as marcas em nossos corpos são frutos das nossas vivências e até das nossas lutas. Devemos mesmo é nos orgulhar deles. Imagina se vou querer apagar os sinais que o nascimento dos meus filhos deixou em meu corpo! Imagina aquela amiga que tem uma cicatriz de uma guerra vencida contra um câncer!

Foto: GC Images


É hora de fazermos as pazes com a nossa aparência e apreciarmos todas essas mudanças que o tempo nos traz. Esse conceito de beleza associado à juventude está ultrapassado e cabe a nós difundir isso! Existe beleza em todas as idades e para enxergar talvez tenhamos que abrir a nossa cabeça, treinar o nosso olhar e parar de julgar. A começar por nós mesmas. Não é fácil se despojar de conceitos massificados durante toda uma existência. Isso é questão de treino! Vamos reprogramar o nosso conceito acerca do belo.

“Se a imagem nos causa estranheza é porque o espelho porta um engano quanto à imagem refletida e não representa tudo aquilo o que somos; apenas nos representa imaginariamente e, assim, possibilita o aparecimento do que não se quer ver, algo que é particular para cada um de nós. Essa percepção de estranheza sofre influência da massificada difusão dos padrões atuais de estética, o que causa a diminuição da nossa autoestima e da qualidade de vida.”

Eliane Jost Blessmann



Sejamos livres para viver essa nova fase de nossas vidas como bem queremos. O importante é nos sentirmos bem com essa pessoa que estamos nos tornando, afinal de contas continuamos em construção. A beleza estará presente em nossa essência e será expressa pelas nossas atitudes e comportamentos. A idade não é uma barreira para continuarmos descobrindo, aprendendo, evoluindo, realizando e mantendo a nossa essência. Como diria Madonna, “é ridícula a ideia ultrapassada e patriarcal de que uma mulher precisa deixar de ser divertida, curiosa, aventureira, bonita ou sexy depois dos 40 anos.”


Foto: Instagram @madonna


Não é sobre envelhecer e sim continuar a fazer o que se fazia, mantendo-se ativa e criativa. Eu nunca acho que estou lutando contra a idade. Estou apenas continuando com a minha vida como sempre fiz. Eu nunca fiquei complacente. Eu nunca me senti confortável (…) Se você continuar se colocando em situações novas e desafiadoras, então você se mantém vivo e jovem”, declarou a cantora.